quinta-feira, 17 de março de 2011

Diário de classe - V

Eu acredito na música como um elemento que agrega no processo educacional. Na minha curta trajetória de professor, coleciono experiências suficientes para sustentar a afirmação. Vou tentar registrar as mais emblemáticas.

Eu e a música.

Antes disso preciso registrar a importância da música na minha formação como pessoa. A minha maturidade sonora ocorreu ao escutar o lp Pela Paz em todo mundo, da banda Cólera. Eu tinha doze anos e nenhuma perspectiva de futuro. A secretária estadual de educação me preparava para ser um trabalhador na reposição de mercadoria num supermercado de Bairro ou um operário de chão de fábrica. Experimentei a última função, mas fui demitido por motivos nobres e dignos a um trabalhador do século XIX, como diria um pos-moderno bem sucedido. Hoje sou um funcionário, não numa fábrica, mas aí já outra discussão. A música (e tudo que envolve o) punk-hardcore me colocou outras perspectivas de futuro, pra mim, melhores do que o Estado idealizou. Parafraseando Naomi Klein, a música criou janelas nas cercas.

Black Flag

Eu fui professor numa escola da rede estadual de educação. O bairro era uma fronteira criada pela mídia, separava toda a cidade “civilizada” e “pacífica” de uma suposta Faixa de Gaza local. A minha experiência com uma turma do ensino médio era dominada por ansiedade e nervosismo. A turma era desafiadora.

Numa manhã vesti um moleton preto, cujas mangas eram seguradas com firmeza, como se fosse me proteger dos problemas imaginados. No fundo da sala estavam os roqueiros, camisetas do Black Sabbath e Green Day. Eu apaixonado por punk rock teria que lidar com roqueiros do Colégio. O histórico era de meter o pavor aos professores dali. O Colégio era uma imensa platéia dos três do fundão.

A aula não rendia. Os três roqueiros eram uma espécie Danko Jones tendo a sala de aula como espaços de shows. A minha fala não obtinha ecos, as tentativas de diálogos eram ruídos de um mudo. A situação provocava um calor na manhã de frio. Precisei tirar a minha proteção, o moleton. De repente, um silêncio. Senti o power trio do fundão se calar, a imaginação criou sons de euforia da platéia.

Os três olhavam para a capa do disco My war, da banda Black Flag, estampada na minha camiseta. De algum modo, os supostos terroristas do espaço escolar leram a mensagem da camiseta. Daquela a manhã a todas até o final do ano, o power trio passou perceber as aulas de história com certa importância e uma maneira de conhecer bandas pesadas e barulhentas.

O final é que os três foram aprovados em história, mas continuram cheios de tédios nas outras matérias, porém mais calmos, quase uma versão acústica tocando a porra da Legião Urbana nas noites joinvilenses. Dois anos depois, encontrei um dos garotos, no Bar China, no centro de Floripa. Trocamos telefones e nenhum outro contato até hoje.

Continua com outras bandas...

Um comentário:

victor b. disse...

haha porra, que massa...o que uma camiseta do black flag não faz hein...
abraço